De costas

E eu que sempre fugi das coisas que já eram fato na minha vida. Eu que sou a famosa “cú doce” oficial, que vivo correndo das coisas que correm em direção a mim. É, estou sempre de costas ao que me pertence e de frente à algo que nunca irei alcançar, algo que nem mesmo sei o que é e se eu quero mesmo.

E aí você entrou na minha vida quando ainda era um menino, daqueles que sonham e guardam nas mãos todos os ideais do mundo. E mesmo de costas, eu te ouvia fazer planos e despejar aquele monte de palavras que você não sabia ainda como direcionar e pra quê. E você falava e era tão barulhento que as vezes me dava uma vontade enorme de te mandar calar a boca. Mas mesmo estando de costas eu podia imaginar seus olhos brilhantes, enquanto você falava mais do que queria. E isso sempre me encantou.

E com o tempo, eu fui me apaixonando ao seu tom e pelo timbre da sua voz. E com o tempo, eu fui me acostumando a ouvir teus planos e acabei até falando dos meus. E com o tempo a gente passou a ter planos quase idênticos. E de tanto que eu gostava dos seus, eu passei a me basear neles, para construir os meus.

Chegou a ter um tempo em que nossos planos chegavam a se encontrar em uma rua ou outra. Eu gostava tanto dos seus planos de menino crescente, e você me incentivava a ser menina-mulher. Nesse tempo a gente se fortalecia na inspiração um do outro. E eu me encantava.

Mas, ao passar dos dias, minha voz ficou mais alta que a sua. E minha voz aumentava à medida em que eu me apaixonava pelo seu timbre, seus planos e o tom que você pincelava a vida. E quanto mais eu aumentava minha voz, mais você abaixava a sua. E um dia nos conversamos aos berros e eu nunca mais esqueci seu tom duro e forte.

E o tempo foi passando e o menino que eu conheci cresceu quase que diante dos meus olhos, se não fossem os 700km de distância. E ao crescer, esse menino me ensinou uma porrada de coisas que eu deveria saber antes dele. E cada vez mais o seu blá blá blá de menino foi se extinguindo e dando espaço à frases curtas, seguras e de efeito. O menino tava a cada dia virando mais homem.

E hoje eu já não estou mais de costas para esse homem. Hoje eu estou de frente, como raramente já estive de frente pra alguém, algum dia. Hoje aprendi a falar baixo, como eu costumava falar antes de conhecer você, menino falante e cheio de idéias. Hoje em dia aprendi a medida exata das palavras. E eu aprendi a falar com o menino, e a baixar o tom, com o homem.

Mas hoje em dia nossas vozes são quase nulas. Assemelham-se a um sussurro. E hoje em dia, quem está de costas na minha frente é você. De costas, há quilômetros de distância e há 15 horas na minha frente.

2 Responses to “De costas”

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